A transformação de uma cadeira quebrada e esquecida em uma peça artística e funcional se transformou em ponto de partida para um projeto do Cras Estrela Dalva que está incentivando os idosos a refletir sobre suas próprias trajetórias de vida. Muito além de ensinar técnicas manuais ou trabalhar a sustentabilidade, o projeto “Desafio da Restauração: Dando Vida Nova às Cadeiras” busca conectar a recuperação física dos móveis ao resgate da autoestima e da vivência interior de cada integrante.

Mais do que restaurar cadeiras e estimular a criatividade, a ideia é criar um elo entre a recuperação de um objeto deteriorado e a possibilidade de cada pessoa também se renovar, rever seus caminhos, fortalecer vínculos e reconhecer que ainda tem muito a contribuir com a sociedade. Elaborada pelo coordenador da unidade, Alessandro Chaves, a ação integra as atividades do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com o envolvimento de toda a equipe de profissionais do Cras.

A metodologia do projeto utiliza o trabalho artesanal e o uso de materiais recicláveis, como retalhos de jeans, tecidos e fuxicos, como ponto de partida para promover o protagonismo, o sentimento de pertencimento e a promoção de um trabalho coletivo que está transformando, com muita criatividade, cadeiras da unidade que estavam sem uso. A proposta é apresentada como uma atividade socioeducativa e de convivência, em que o objeto funciona como símbolo de transformação.

“Aquilo que parecia sem utilidade pode ganhar uma nova vida, assim como as histórias, experiências e habilidades de cada participante”, pontua o coordenador. Segundo ele, o principal objetivo não está apenas no resultado físico da restauração. “O desafio não é só do móvel em si. O restaurar se materializa na cadeira, mas é para levar para a vida. Esse é o ponto principal desse projeto”, afirma.

A condução prática da oficina conta com a participação ativa dos educadores sociais e técnicos do Cras. A educadora social Luciana Fogaça de Souza acompanha o desenvolvimento das técnicas artesanais e observa os ganhos do trabalho coletivo na rotina do grupo. “A gente compara a restauração do móvel com a restauração da própria vida, pois incentivamos as participantes a se valorizarem e a darem utilidade ao que estava descartado. As técnicas vão surgindo da própria convivência do grupo, onde um aprende com o outro, criando um ambiente de amizade e cooperação muito forte que eles levam para fora do Cras”, relata Luciana.

Quatro cadeiras já passaram pelo processo e outras 11 devem ser restauradas até o fim do projeto. Antes de ganhar uma nova roupagem, técnicos e professores da unidade desmontam as cadeiras para facilitar a aplicação das técnicas artesanais. Outro diferencial é a possibilidade de levar a experiência para fora do Cras. “Elas vão poder fazer esse trabalho em casa, com a família, vão poder restaurar algum objeto que elas vão usar no dia a dia. É uma participação mais coletiva, que une a família”, diz Luciana.

Descoberta de habilidades

Entre os idosos, a experiência tem sido associada à descoberta de novas habilidades e à possibilidade de continuar criando em família. A usuária Ivone Maria Andrade de Moraes, que frequenta o espaço há três anos após procurar o serviço para combater um quadro depressivo, destaca o impacto positivo das atividades em sua rotina. “Vir para cá foi a melhor coisa que fiz na vida. O projeto é uma experiência muito boa e adoro fazer o fuxico. Mostro tudo para a minha família, minha filha acompanha e curte no Instagram, e é algo que pretendo fazer em casa também, além de ser um momento de muita união e diversão com os colegas”, conta Ivone.

A sensação de capacidade renovada também é compartilhada por Marilete Delgado, que encontrou no grupo a motivação para sair do isolamento rotineiro. Frequentando o Cras há pouco mais de dois anos, ela aprendeu técnicas de crochê, ponto cruz e fuxico, que agora aplica na recuperação das peças.

“Antes eu estava parada em casa, sem motivação. O Cras me proporcionou exercícios e trabalhos manuais que me ajudaram muito. Fazer a restauração é uma novidade que dá para prolongar dentro da nossa própria casa. Quando a gente vê o trabalho pronto, feito com as próprias mãos e sabendo que o objeto não vai para o lixo, a gente se sente muito agradecida, entusiasmada e feliz por ver do que é capaz”, conclui Marilete.