Complexo Ferroviário

Foto: Raoni Ramires

Com objetivos de modernizar o país, ocupar e integrar o território nacional, fixar os limites e espantar as ameaças internas e externas, atualizar os sertões e integrá-los a civilização é que a Estrada Ferro Noroeste do Brasil se concretizou.

A primeira estação de passageiros de Campo Grande foi construída em madeira e deveria ser provisória, foi inaugurada em 1914, e possuía um partido e programa de necessidade simples, tinha apenas o intuito de atender o embarque e desembarque de passageiros. Na década de 1920, a estação é substituída por um prédio em alvenaria (DOMINGUES e SILVA, 2012). Na década de 30, com a chegada do Engenheiro Aurélio Ibiapina, foi construída a nova estação, posto que a estação existente já não comportava o crescente desenvolvimento do tráfego na cidade.

Dentre as classificações de estações, pode-se dizer que a estação central de Campo Grande seguiu a configuração tradicional de estações (FINGUER, 2013). Sobre a tipologia da estação, a de Campo Grande é classificada por pavilhão central com duas partes laterais e plataformas de embarque e desembarque margeando as construções. Um elemento que chama atenção na fachada da estação central de Campo Grande é o relógio, fazendo com que a estação seja um marco temporal no cotidiano da vida urbana, máxima representação do período industrial de controle social e do trabalho.

O Armazém de cargas

O Armazém de cargas é o prédio contíguo a estação e é um dos maiores edifícios do conjunto. Segundo o relatório anual da NOB, foi construído em 1942. Sua tipologia se enquadraria na definição de pavilhão central com duas partes laterais, sendo que o corpo central é simétrico e mantém um ritmo entre as aberturas, lança mão do artifício do tijolo aparente pintado marcando a estrutura e as molduras dos vãos e linhas verticais. Suas empenas são marcadas com as insígnias da NOB em seu frontão.

 

A Vila Ferroviária

A arquitetura ferroviária, muito tem a ver com a organização espacial que nasceu na Europa no pós Revolução Industrial, cujos empreendimentos industriais trouxeram a construção de vilas de operários, a fim de manter seus funcionários próximos ao trabalho, devido ao melhor controle da força de trabalho e melhoria nas questões sanitárias e morais. Porém, no caso do Brasil, e principalmente na questão ferroviária, além dos aspectos acima, um fator determinante na construção das vilas de operários, é também a falta de moradias para abrigar os trabalhadores, principalmente das áreas mais rurais, como no caso de Campo Grande, distanciando a vida e trabalho rural e aproximando os operários ao trabalho urbano e moderno (FINGER, 2009).

A configuração espacial das vilas ferroviárias, que eram casas destinadas para os trabalhadores da ferrovia, se destaca pelo caráter hierárquico das construções, das relações sociais dos seus moradores e na separação espacial dos estratos sociais de trabalho na ferrovia. Quanto maior e mais ornamentada era a residência, maior a graduação e nível hierárquico do seu morador dentro da Companhia (ROLIM, 2006). Em Campo Grande essa característica é marcante. As casas ao longo da Av. Calógeras, entre a Av. Mato Grosso e a Rua Dr. Temístocles ocupam posição privilegiada dentro do Complexo, eram destinadas aos engenheiros da Ferrovia e aos funcionários mais graduados, o tamanho dos lotes era maior e as casas implantadas isoladas, possuíam um melhor padrão construtivo, localizavam-se estrategicamente na frente da estação e tinham inspirações na arquitetura europeia ecletizante (ROLIM, 2006).

A casa construída na esquina Avenida Calógeras com a Rua Dr. Temístocles está diretamente relacionada à história da estação ferroviária, pois o responsável por sua construção, o engenheiro Aurélio Ibiapina, é o mesmo engenheiro que construiu a estação de Campo Grande na década de 1930. Já as casas da Avenida Calógeras, da Rua General Mello da Rua Dr. Temístocles, serviam de residência para os trabalhadores de nível intermediário, seu programa era mais simples, o lote era mais estreito e não tinham muita ornamentação, mas permaneciam isoladas nos lotes, características que já a diferenciava dentro de uma hierarquia de ocupação, pois eram implantadas próximas a estação, região de convívio social do Complexo. Destaque para a casa da esquina da Rua General Melo com a Avenida Calógeras que abrigava o escritório da NOB.

A Rua Dr. Ferreira é a típica vila ferroviária, as casas eram destinadas aos operários e tinham um padrão construtivo inferior e mais simples. A arquitetura da rua é marcada pela repetição de casas geminadas e pela distância das casas para com as casas dos chefes, estando mais próximas aos locais de trabalho, o Armazém e as Oficinas. Quanto às casas da Rua 14 de julho, há uma variação de tipologias, já não havia uma segregação nítida das classes de trabalhadores, visto que lá encontramos tanto casas geminadas com programas iguais as das casas da Rua Dr. Ferreira, reservada aos operários, quanto casas com características iguais as da Av. Calógeras, destinadas aos funcionários intermediários.

Ainda sobre as tipologias das casas e sua função social no Complexo Ferroviário de Campo Grande, observa-se a presença de exemplares em madeira. As construções em madeira no contexto ferroviário possuíam muitas vezes um caráter efêmero, sendo substituídas ao longo dos anos pelas construções em alvenaria. Porém, em Campo Grande, a Rua dos Ferroviários, ainda guarda o testemunho dessa arquitetura, as residências possuíam sistema de tábuas na vertical e mata-juntas para eliminar as frestas entre elas, destinadas aos operários da ferrovia.

 

A escola Álvaro Martins Neto

O prédio da escola Álvaro Martins Neto, também conhecida como “batatinha”, é uma edificação de programa simples, construída no alinhamento do lote, dotada de salas de aula e sanitários, sua cobertura é escondida pelas platibandas, janelas em ferro e com ornamentos com leve inspiração no Art´Decó. Sua construção é da década de 1930 e a construção teria sido resultado de uma solicitação da Associação dos Moradores da Ferrovia. O nome que leva a escola faz referência a um ex-ferroviário que morreu num acidente de trabalho e que o ocorrido teria alterado a forma de trabalho na ferrovia. (GRECO, 2014)

As oficinas, depósitos e galpão para abrigo de carros

Na parte interna da esplanada ferroviária, entre a Rotunda e o Armazém, encontram-se um conjunto de imóveis que foram construídos entre 1942 e 1943. São construções em tijolos aparentes com marcação das estruturas e molduras das aberturas, além do galpão para abrigo de carros que é o que possui maior expressão estética, pois trata-se de um edifício com cobertura de tesoura de madeira que apóia telhas de barro, com empenas em madeira com aberturas em arcos e um beiral lateral de proteção, apoiado em uma mão francesa em madeira.

Conjunto da Rotunda

O conjunto da Rotunda, prédio localizado na esplanada do Complexo Ferroviário Histórico e Urbanístico da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) em Campo Grande/MS é vestígio da arqueologia industrial ferroviária, memória cultural de um sistema de trabalho do final da primeira metade do século XX. Ele faz parte de um Complexo histórico tombado nas três esferas de poder, Federal, Estadual e Municipal, tendo por motivação, a organização social e espacial da ferrovia e o modo de vida dos seus trabalhadores, que traz consigo uma relação intrínseca com a modernidade industrial brasileira, fato de real importância na formação do país e ponto de partida para a preservação do Patrimônio Cultural remanescente do “apito do trem”.

Sua construção foi financiada pelo Plano Especial de Obras Públicas e Aparelhamento da Defesa Nacional, programa criado por Getúlio Vargas no regime do Estado Novo em 1939. A obra foi iniciada em 1941 e finalizada em 1943. O conjunto em questão é formado por uma Rotunda/Oficina, a construção em maior escala, capaz de dar manutenção simultaneamente em 13 (treze) Locomotivas, o Girador ao centro e um prédio com planta em curva, em menor escala e localizado a frente da Rotunda, local de lavagem do maquinário.

O sítio da NOB em Campo Grande, ainda guarda em suas edificações e na tipologia de sua implantação resquícios de uma memória industrial, um todo intercomunicante necessário para o empreendimento ferroviário funcionar, bem como a etnografia da ocupação da vila ferroviária, demarcando bem a estratificação social do conjunto, além de toda uma técnica construtiva e estética diferenciada do restante da cidade impregnada nos exemplares arquitetônicos que formam a paisagem ferroviária.

A fim de salvaguardar o Patrimônio Cultural advindos da presença da NOB em Campo Grande, e principalmente, em decorrência da desativação do trem de passageiro e da privatização da Ferrovia em 1996, a municipalidade efetuou no mesmo ano, após um movimento social, forçando o prefeito da época, Juvêncio Cesar da Fonseca, a efetuar o tombamento de todos os imóveis que fizeram parte do momento áureo da ferrovia na cidade. Tombamento do Sítio Histórico da Ferrovia NOB (Vila Noroeste); Rua Dr. Ferreira; os imóveis e demais edificações localizados na Rua dos Ferroviários em toda a sua extensão; o imóvel localizado na Rua Antônio Maria Coelho no perímetro entre a Rua dos Ferroviários e Avenida Calógeras; os imóveis de número 2960, 2980, 3002 e 3018, localizados na Avenida Calógeras em frente à Estação Ferroviária, entre a Avenida Mato Grosso e a Travessa Dr. Temístocles. Os imóveis de números 15, 35, 49, 64 e 67 localizados na Travessa Dr. Temístocles; os localizados na Rua General Mello no perímetro entre a Rua Dr. Ferreira e a Avenida Calógeras; os imóveis localizados na Rua 14 de Julho no perímetro compreendido entre a Rua Eça de Queiroz e Rua Dr. Ferreira; e os imóveis que compõem a Estação Ferroviária de Campo Grande – Decreto Municipal nº3249, de 13 de maio de 1996.

Na mesma ótica, o Governo do estado publica a Lei nº 1.735, de 26 de março de 1997 que dispõe sobre o tombamento dos sítios históricos localizados, desde Três Lagoas até Corumbá, consistentes das Estações Ferroviárias da antiga NOB e seus respectivos entornos históricos. O tombamento do estado é bastante controverso em decorrência da amplitude de sua área tombada, essa medida faz com que o Estado não consiga salvaguardar o patrimônio protegido da rede férrea em Mato Grosso do Sul.

No ano de 2009, o Iphan realiza o tombamento do Complexo Ferroviário Histórico e Urbanístico da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil no município de Campo Grande, no estado do Mato Grosso do Sul, por meio do Processo de tombamento nº 1.536-T-06 na categoria de Conjunto Urbano. O tombamento do Complexo Ferroviário teve seu caráter definitivo declarado em outubro de 2014. Portanto, fica tombada uma área de 22,3 hectares, formada por 135 imóveis, viadutos ferroviários e parte dos remanescentes dos trilhos.

Estação Ferroviária – NOB – Síntese Histórica:

Data de Construção:  1935

Nome do construtor: Aurélio Ibiapina

Descrição arquitetônica: Embasamento em soco com plataforma e escada de acesso Corpo central em ressalto ladeado por alas. Trama de pilastras com aberturas retangulares emolduradas. Coroamento com frontão em formas geométricas curvas e relógio no tímpano acima da cobertura aparente. Inspiração no ecletismo.

Ano de tombamento pelo município: 1996.

Localização: Rua Calógeras, Esplanada Ferroviária, s/n – Centro

 

Armazém do Complexo Ferroviário – Síntese Histórica:

Data de Construção: 1942

Nome do construtor: Aurélio Ibiapina

Descrição arquitetônica: edifício retangular, em quadro águas, com frontão demarcado em forma escalonada, pé direito alto com função de armazenamento, apresentando estilo eclético.

Ano de tombamento pelo município: 1996.

Localização: Rua Calógeras, Esplanada Ferroviária, s/n – Centro

 

 

Rotunda do Complexo Ferroviário – Síntese Histórica:

Data de Construção: Entre 1941 a 1943

Nome do construtor: Desconhecido

Descrição arquitetônica: O edifício apresenta volumetria arquitetônica do tipo 180º ou meia rotunda.

Ano de tombamento pelo município: 1996.

Localização: Rua Calógeras, Esplanada Ferroviária, s/n – Centro

 

Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul – Síntese Histórica:

Data de Construção: Entre os anos de 1935 e 1939.

Nome do construtor: Participação do engenheiro Aurélio Ibiapina.

Descrição arquitetônica: Edifício assobradado com corpo retangular, possuindo varanda frontal e alpendre no pavimento superior. Possui duas salas, escritório, copa cozinha, três quartos e dois banheiros.

Ano de tombamento pelo município: 1996.

Localização: Rua Calógeras, nº 3000 – Centro

 

Gabinete do Prefeito, antiga casa do engenheiro chefe da NOB – Síntese Histórica:

Data de Construção: Aproximadamente 1935.

Nome do construtor: Desconhecido

Descrição arquitetônica: Embasamento composto por soco em cantaria. Corpo em alpendre avarandado com guarda corpo. Trama de pilastras emparelhadas com aberturas retangulares. Coroamento com prolongamento do beiral. Estilo eclético.

Ano de tombamento pelo município: 1996.

Localização: Esquina entre a Avenida Mato Grosso e Rua Calógeras, nº s/n – Centro

 

Texto: João Henrique dos Santos (Arquiteto e Urbanista)